Participação do internauta
Como foi falado no vídeo dois da entrevista com o professor e historiador João Francisco Tidei de Lima (sobre a moral Burguesa no século XIX), “numa obra de ficção como O Médico e o Monstro, os personagens, os acontecimentos e as características do lugar são influenciadas por fatos reais”. Atento a isso, o Ricardo Foganholo enviou o texto abaixo:
A Vida Secreta de William Brodie
O homem que era simultaneamente o médico e o monstro
William Brodie era um respeitável cidadão de Edimburgo, na Escócia, que viveu nos meados do século XVIII. Numa cidade puritana, destacava-se como modelo de sobriedade cívica. Filho de um próspero marceneiro, era mestre de uma loja maçônica e conselheiro municipal.
Foi também o modelo que inspirou uma das mais impressionantes figuras da literatura inglesa, o Dr. Jekyll, o cientista esquizofrênico da obra de Robert Louis Stevenson, O Médico e o Monstro.
De fato, Brodie, tal como o pacífico médico da obra mencionada, ocultava uma vida secreta por detrás da sua máscara de virtude. Durante o dia, era um homem de negócios; de noite, um jogador e um perigoso gatuno.
Ninguém conhecia o seu segredo, nem mesmo as suas duas amantes, das quais teve cinco filhos e que nada sabiam da existência uma da outra.
Brodie tinha a idade de 27 anos quando começou a dedicar-se ao crime. Em agosto do ano de 1768, fez duplicatas das chaves de um banco da cidade, donde roubou um total de 800 libras. Porém, e embora continuasse a assaltar muitos edifícios nos 18 anos seguintes, nem a mais leve suspeita recaiu sobre ele.
Fuga e Captura
O começo do fim chegou em 1786, quando se associou a três ladrões vulgares. Em conjunto planejaram o mais ousado assalto de Brodie – às alfândegas e finanças escocesas. A quadrilha foi surpreendida por um empregado e, embora Brodie tenha fugido, um dos ladrões, John Brown, denunciou o cúmplice a fim de evitar o degredo por outros crimes que cometera na Inglaterra. Brodie fugiu para Amsterdã, esperando embarcar para a América.
Na véspera de sua partida, porém, a policia apanhou-o. Brodie foi extraditado e julgado no mesmo tribunal em que, apenas alguns meses antes, tivera assento na qualidade de jurado.
Os argumentos foram concludentes; a policia encontrou a prova de sua dupla identidade: chaves falsas, pistolas e um traje negro de gatuno.
Brodie foi condenado à morte. Mas o homem que se rira da lei durante décadas não se encontrava ainda vencido. Na véspera da execução, à noite, enrolou arame sob as suas roupas em torno do corpo, desde o pescoço aos tornozelos, para amortizar a força estranguladora da corda, e colocou um tubo de prata na garganta para reduzir o aperto do nó.
Nenhum dos truques resultou. No dia 1º de outubro de 1788 morreu no cadafalso de Edimburgo.
Quase um século depois, Robert Louis Stevenson e William Henley escreveram uma peça baseada na história de Brodie, O Mestre Brodie, ou A Vida Dupla, que foi estreada no Prince’s Theatre em Londres, no ano de 1884. Nela, o gatuno explica a liberdade de que desfruta na sua vida noturna de crimes.
Dois anos depois, Stevenson alterou o tema e intitulou a obra O Estranho Caso do Dr, Jekyll e do Sr, Hyde (O Médico e o Monstro, como é mais conhecida), uma história notável sobre o aspecto mais negativo do homem.
Nela, o Dr. Jekyl descobre, depois de experiências realizadas com uma droga, que “o homem não é verdadeiramente um, mas realmente dois”, e descreve “como aprendi a reconhecer a completa e primitiva dualidade do homem”.
Explica como ficou satisfeito com a experiência: “Se cada um, disse para comigo, pudesse ser compartimentado em identidades separadas, a vida seria liberdade de tudo quanto é insuportável; o injusto seguiria o seu caminho, liberto das aspirações e do remorso do seu gêmeo mais honesto; e o justo poderia avançar, resolutamente e em segurança, no seu caminho ascendente, praticando o bem em que encontrava o seu prazer, e não mais exposto à desgraça e a penitência às mãos deste mal alheio.”
Assim tornou Stevenson racional a forma pela qual o mal inerente no homem se apoderou do respeitável Brodie.

William Brodie
(Fonte: O Grande Livro do Maravilhoso e do Fantástico, Seleções do Reader’s Digest, 1997 – pág. 540)